O conceito é simples e rotineiro. Todo mundo já teve momentos onde se lembrava de que um dia iria morrer, e isto te motivava a querer viver mais ainda, memento mori, é uma frase repetida e vista por aí em tatuagens nas pessoas mais chatas e desinteressantes que você conhece. O meu propósito com isto não é ser mais um a repetir os clichês, mas sim levantar uma indagação, trazer a resposta e trabalhar as possíveis soluções deste problema. E aqui jaz a questão: Esquecemos de que vamos morrer?
Existe um problema claro e multigeracional dos integrantes do então chamado século XXI, o até então século mais curto, mas com o maior número de revoluções técnológicas, mudanças de paradigmas, acesso a informação, e tudo que a vida moderna e globalizada está disposta a nos oferecer, porém, tudo que está acontecendo parece tão dinâmico e rápido de que esquecemos da principal força motora do ser humano, que deveria guiar todas as decisões, medos e prazeres. Esquecemos de que somos mortais e que estamos fadados a desaparecer deste mundo.
Quando devemos decidir o que veradeiramente importa na nossa vida, a morte deve tomar uma posição primordial nas nossas escolhas. Perguntas como, “Vale a pena morrer por isto?”, “Os meus dias contados aqui na terra, serão bem gastos com isto?” devem ser pivotais ao tomar uma decisão verdadeiramente importante. Tudo que gera propósito leva a um destino final, como num filme que começa com um propósito definido, e leva a um grande climax resolvendo este problema inicial, porém, uma das ironias da vida, é que todos nós temos o mesmo destino final, certeiro desde que nascemos, e este deve não só ser nosso maior medo, como também deve ser o maior incitador para aproveitarmos o tempo que ainda nos resta.
O que vejo hoje no entanto é que, para a maioria das pessoas, não existe esta urgência, este medo. Pense na sua rotina enquanto eu penso na minha, no que você faz na maioria dos dias, a partir de quando você acorda, até a hora que você vai dormir, e pense, é assim que devo estar vivendo minha vida, mesmo sabendo que posso morrer?
Não estou pedindo para que nós todos simplesmente saiamos tendo constantes epifanias, larguemos nossos empregos, e vivamos de modos extremos, como devotos religiosos, hedonistas sem freio, artistas insanos ou apaixonados dependentes, mas que sim façamos as decisões corretas, com base nos fatos, e o *único* fato que é certeiro em qualquer decisão é o fato de que vamos morrer.
Talvez, ao pensar hoje a noite, depois que você chega do trabalho cansado, se você deveria ficar assistindo a vídeos no instagram durante horas, ou se deveria brincar com seu filho, se levar em conta o fato de que um dia você vai morrer, de que seu filho vai crescer e que este momento vai acabar e nunca mais vai voltar, só talvez, então você se tome de conta de que existe uma decisão que é clara e notória, apesar de não ser comum.
Apesar de que, nem toda a decisão pede uma meditação tão profunda sobre nossa mortalidade. Não estou pedindo para que decidamos que calça usar para um encontro, com base na possibilidade de morrer, apesar que, se fosse para ser atropelado e sair no jornal, eu preferiria estar bem vestido.
Eu não sofro. Não sofro por que não me dou a oportunidade de sofrer, na verdade, tudo que eu gostaria é aprender a sofrer denovo, aumentar minha capacidade de sentir sentimentos ruins, para me tirar do estado de ansiedade constante, que não necessariamente é desconforto constante, mas sim, a eterna busca por conforto, buscar uma maneira de amenizar os sentimentos ruins apenas buscando outras formas de me sentir melhor.
Isto tudo se deve a minha falta de consciência. Pois a maior parte do tempo meu cérebro gasta criando cenários, pensando sobre as coisas, problematizando, e não processando o presente, o que está ali, na minha frente.
O problema é que, junto deste estado de desassociação, eu também tenho uma grande vontade de fazer algo significativo, algo diferente, me destacar, só que atualmente eu me perdi, perdi minha identidade, minhas paixões. Me sinto perdido numa vastidão, com apenas uma leve angústia que perdura no fundo da minha alma, me sinto sozinho, não triste, mas sim sem propósito.
Este estado e esta ansiedade são um tanto quanto curiosas, por que ao mesmo tempo que sinto estes sentimentos, também não consigo notar minha própria existência, o que me torna desassociado inclusive dos medos, como o medo da morte, o medo de perder alguém que amo, o medo de perder meu emprego. Como eu não sinto, não sofro.
A falta de sofrimento acaba me desequilibrando, e portanto, o que acontece é que tanto quanto não me sinto mal, também não me sinto bem, coisas que deveriam me dar uma plena satisfação, coisas que deveriam ser estimuladoras, acabam sendo chatas, tristes por eu saber que não se repetirão, ou estimuladoras demais, o que faz com que eu sofra uma ressaca emocional. Ressaca esta que faz com que eu então me sinta mal, volte com os mesmos hábitos para evitar me sentir mal, e o ciclo se repete.
Há muito tempo que eu busco uma solução para isto, de modo que eu possa encontrar e perseguir um sonho, criar metas, concluir projetos, sair do deserto em busca de sofrimento, de coragem, de poder utilizar minha criatividade, porém coisas como estas não são tão simples. Como eu aprendo a sofrer?
Como um garoto judeu do suburbio, mergulhado em uma cultura que não é a minha, o blues toca a minha alma e faz parte de mim, o bend de uma guitarra é algo orgasmico, move os músculos do meu corpo de forma metafísica, inexplicável.
Eu não sou judeu. Eu nasci no subúrbio de Pelotas, no Rio Grande do Sul, apenas a 100 km do Uruguaim, um lugar extremamente frio no inverno, e extremamente quente no verão, algo que combinado com a minha personalidade. Nasci em 2002, bem distante do movimento folk estadunidense que eu conheci anos depois, e bem distante do Robert Allen Zimmerman, ainda assim, posso dizer que sinto que uma grande parte da minha personalidade pode ser conectada a ele, o primeiro a se desconectar do seu nome, da sua cultura, abraçar a modernidade, a negritude, a alma e a artisticidade do blues para se conectar com o mundo como ele experienciava, e não necessariamente como ele é.
Se as vezes eu me sinto desconectado é por que eu deixo de tocar o mundo como eu o experiencio, por que não tive a coragem que o Bob teve, por que não sei racionalizar toda a frustração que tenho, mas no fundo eu só devo me jogar, sentir o blues na minha pele, sentir o bend ir cada vez mais fundo, em mi menor, aceitar que devo tudo a esse sentimento e que esse sentimento me representa.
No final eu não sei o que quero, o que devo fazer, mas sei que isto é o correto. Devo amar, devo buscar e devo afundar minhas mágoas na músicalidade. Viva o blues, viva Bob Dylan, e que venha 2026.
Se eu tivesse que julgar, eu diria que sou uma pessoa inteligente, daquelas que tem um bom raciocínio lógico, entende o movimento natural das coisas, resolve problemas, cria soluções, porém, quando o assunto é relacionamentos, pessoas, é como se houvesse uma neblina densa á frente, e eu ando, ando e ando um pouco mais, segurando minha lanterna e gritando por ajuda, sem saber se vou dar de cara com uma mina de ouro, ou se vou cair de um precipício. Como pode alguém inteligente ser tão *clueless* quando o assunto é lidar com outra pessoa que se interessa por mim? Talvez seja por que simplesmente estas coisas não tem uma resposta lógica. É como procurar um padrão jogando numa roleta no cassino, você as vezes pode achar que a próxima cor vai ser o preto, por que já apareceram muitos vermelhos, mas a chance de você errar ou acertar é a mesma de antes, o reconhecimento dos padrões são falsos e você só está enganando a si mesmo tentando prever o que vai acontecer.
Dada esta introdução, gostaria de falar mais de mim mesmo e de Irene (este não é o nome dela, mas sim o nome de um filme estrelado pelo Jim Carrey). Nós namoramos durante um ano, durante este ano consigo dizer confiantemente que nunca conheci alguém igual a ela, tanto na parte boa, quanto na parte ruim. Na parte boa eu considero que durante este ano não fomos apenas namorados, mas também fomos grandes amigos, gostávamos de conversar um com o outro, de passar tempo juntos, de experimentar coisas novas, e de tudo mais que um casal poderia fazer. Nossos gostos são parecidos, nossas dores também, eu poderia ficar falando durante horas e horas sobre tudo que faz eu ter o carinho que eu tenho por ela, além de achar ela uma pessoa admirável em outros aspectos, mas também devo falar sobre a parte ruim. Antes de citar todos defeitos eu quero falar que de jeito algum eu sou ou fui perfeito, ou algo perto disto, eu cometi durante nosso relacionamento diversos erros que fizeram com que nós nos distanciássemos, fui injusto e muitas vezes fiz ela se sentir insegura, me fiz de vítima, não fui claro o suficiente e criei inseguranças para ela, eu mesmo sou muito inseguro e tenho problemas pessoais enormes, mas devo falar dos erros dela também. Como eu disse antes, ela foi minha primeira namorada, por isto, eu esperava dela mais paciência comigo, esperava mais comunicação, nunca tive de fato problemas com os problemas em si que ela, ou que nós, tínhamos, mas o que mais me incomodava era o fato de nós não conseguirmos trabalhar para resolver os ditos problemas, faltou de fato comunicação. Faltou também certa consistência, sinto que ela foi (e talvez seja ainda) muito inconsistente emocionalmente, uma montanha russa que eu tive o desprazer de embarcar. No geral eu gostaria que ela confiasse mais em mim para tentar resolver seus problemas, não que eu fosse um problema para ela ter que lidar, mas talvez tenha sido eu que tenha falhado nesta parte. É difícil escolher um culpado, falar quem teve mais culpa que quem. Uma frase que fica em constante repetição na minha cabeça foi algo que meu psicólogo me disse na nossa última consulta “Um relacionamento nunca termina exclusivamente por culpa de apenas uma pessoa”, a não ser que você seja a ex-esposa do jogador Kaká, eu imagino que este seja realmente o caso, portanto, não quero culpá-la de algo que eu poderia ter evitado, prefiro assumir a culpa e tentar ser uma pessoa melhor. Até porque eu posso ser bem babaca as vezes.
Chegamos então ao presente, onde algumas semanas atrás ela decide me contatar. Confesso que não estava esperando que fossemos nos falar denovo, do jeito que foi nosso último contato eu imaginei que não iriamos mais nos relacionar, e que talvez fosse melhor deste jeito, porém, aqui estou, escrevendo sobre esse contato repentino, que definitivamente virou meu mundo de cabeça para baixo. Desde o dia que recebi esta mensagem dela minha ansiedade tem piorado consideravelmente, até porque eu gosto muito dela, tenho medo de ser magoado denovo, de ter meu ego ferido, de perder denovo alguém cujo o luto talvez eu nem tenha superado ainda. Não só isto como toda a incerteza pairando o ar me deixa muito inseguro e ansioso, a cada mensagem recebida eu penso um milhão de vezes se deveria responder, ou se é melhor eu evitar a possibilidade da dor. A cada mensagem enviada eu penso se talvez ela vá perder o interesse em mim de repente, aguardo uma resposta que demonstra que ela gosta de fato de mim.
Não quero parecer aqui alguém emocionado (apesar de talvez estar um pouco com as emoções afloradas), mas sim quero retratar a realidade das minhas emoções e o sentimento das últimas semanas. Não pretendo e nem quero apressar as coisas, entendo que a valsa tem certo ritmo, que deve ser respeitado na dança, caso o contrário fica ridículo, erramos os movimentos e caímos com as pernas entrelaçadas batendo de bunda no chão. Não quero que seja assim, não quero que de repente ela mande uma mensagem de “Eu te amo”, até porque eu nem sei de fato como eu lidaria com isto. Eu simplesmente gostaria de ter a visão de um horizonte para os fatos, poder falar que sei onde estou me metendo e sei qual vai ser o output provável se eu decidir apostar minhas cartas na mesa. Por enquanto estou dando check para ver o river, porém sinto que já estou com muitas fichas na mesa, naturalmente, e não consigo enxergar quais cartas estou segurando em minhas mãos.
Ainda além desses detalhes, nós nos encontramos nessa sexta-feira (ontem, quando estou escrevendo isto), e tenho que ser sincero e dizer que foi bom (estranho talvez? porém bom). Conversamos sobre tudo e mais um pouco, fizemos incontáveis piadas sobre sermos ex namorados, rimos alto, tive que escutar algumas histórias sobre relacionamentos que ela teve nesse meio tempo (mas de certa forma eu até gosto que ela confie em mim para contar este tipo de coisa, apesar de ser torturante ouvir que ela se relacionou com outro homem), e também supreendentemente senti que ela queria conversar mais sério as vezes, como se ela estivesse me testando (e se auto-testando) para ver se deveríamos nos relacionar denovo. Ela também disse que se sentiu apreensiva de me ver, então, não consigo ver um mundo onde ela pensa no nosso possível relacionamento sendo apenas casual ou amigável. Acredito que nós vamos voltar a namorar, ou, caso contrário, o prudente é que continuemos nossas vidas, separados. Ainda falando sobre nosso encontro, é importante falar que no final, quando deixei ela na frente do condomínio dela nós nos beijamos, ela de forma um tanto quanto agressiva, quis me beijar segurando meu pescoço, me arranhando, e depois eu abracei ela, e ficamos assim por alguns segundos, relembrando o carinho que tinhamos um pelo outro. Posso estar simplesmente fantasiando mas vejo que há algo nestes pequenos gestos, como ela me arranhando como forma de me “marcar” para que eu não me relacione com nenhuma outra garota, ou ela falando que quer ir na peça que eu vou atuar, que vai acontecer só em dezembro, dando a entender que estaremos nos relacionando ainda até o fim do ano. Tivemos algumas falas cuidadosas, que nas entrelinhas eu lia “Estou disposto a tentar, talvez funcione dessa vez”.
Sinto que enquanto essa história não tiver um fechamento eu estarei beirando a insanidade, como se eu estivesse assistindo meu time perder uma partida de futebol, e com 10 minutos faltando, a única tática é cruzar a bola para dentro da grande área. Esse nível de ansiedade. Mas quero que as coisas fluam naturalmente, sem pressa, sem pressão, com suavidade. Ela me chamou também para sairmos dias 5 e 8, e espero que consigamos conversar mais, chegarmos em um acordo de que independentemente do resultado, seremos justos um com o outro, e não nos machuquemos atoa.
Enquanto isso, eu continuarei sendo eu mesmo, com minha inocência, acreditando que tudo pode dar certo e que eu tenho a capacidade de resolver qualquer coisa, mesmo que seja uma mentira que eu conto para mim mesmo.
Está na hora de crescer um pouco. Chega de agir como se eu fosse uma criança para as pessoas que importam para mim, chega de tratar com rancor, deixar minhas inseguranças levarem o melhor de mim. Está na hora de eu ser uma pessoa emocionalmente responsável.
Eu devo pensar mais no que eu falo, pensar nas sensibilidades das pessoas, ser um homem traz certas responsabilidades consigo. Me enxergar como adulto é necessário nesse estágio da minha vida, onde minhas decisões importam, onde em poucos meses minha vida pode mudar para sempre.
Eu venho me preparando cada vez mais para me dedicar completamente á arte, quero ir estudar cinema em São Paulo, e apesar de ser um pouco caro, acredito que eu consiga guardar o dinheiro suficiente para fazer com que isto possa acontecer. A vida de TI é chata, e não consigo me ver trabalhando por mais 5 anos nesta área, que, por mais que pague bem, não me traz preenchimento nenhum.
Não só preciso ter responsabilidade emocional com as outras pessoas como preciso ter responsabilidade emocional comigo mesmo. Ainda mais quando se trata de seguir meus sonhos, quando se trata de progredir e não ficar preso ao passado, preciso ter paciência, entender meus sentimentos, dar espaço para eu sentir as coisas, preciso ser capaz de estudar durante longas horas, trabalhar sem sentir que estou cometendo um crime, entender as minhas motivações para chegar onde eu almejo.
Recentemente venho tendo sessões regulares com um psicólogo e acredito que isto tem me beneficiado bastante, não sei se posso atribuir minha clareza mental simplesmente ás consultas, porém, certamente vem me ajudado muito. Poder discutir meus problemas e organizar meus pensamentos que antes eram dispersos tem feito com que meu dia-a-dia se tornasse mais amigável a mim mesmo, e eu tenho criado uma maior capacidade de pensar racionalmente ao invés de me sentir ansioso e buscar a anestesia mais próxima.
Nas últimas semanas também venho tendo contato denovo com a minha ex, e até aqui as coisas vão bem, apesar de me sentir fora do controle das coisas sinto que nosso relacionamento durante estas semanas tem sido saudável e recíproco. Preciso esperar para ver como ela vai agir comigo nas próximas vezes que nos vermos, tentar entender melhor o lado dela, apesar de acreditar que estamos nós dois reciosos, ainda assim parece que estamos gostando um do outro, e as coisas parecem serem produtivas para ir á frente.
Ela foi minha primeira namorada e por isso, sinto que, durante nosso namoro eu provavelmente não fui a pessoa mais emocionalmente responsável, deveria ter tido mais paciência, deveria ter cuidado mais dela, não ter trazido tão á tona algumas inseguranças dela e ter focado mais em mim mesmo, para garantir que eu seja a melhor pessoa possível para ela, e caso também, caso nosso relacionamento não funcione, eu sinta que não perdi tempo demais e que consegui progredir na esfera pessoal.
O termo “virar homem” pode significar muita coisa, mas sinto que para mim, o que este termo significa é a passagem da pessoa que entende seus sentimentos e os dos outros, e sabe seu rumo, seus objetivos. Estou planejando escrever um próximo post falando mais sobre meu relacionamento com minha ex, como eu espero que as coisas vão se desenrolar, e um pouco sobre o que passa na minha mente durante estas semanas que venho conversando com ela. Meus sentimentos tem sido bem mistos e durante a maior parte do tempo me sinto excessivamente ansioso. Não quero pressionar ela, muito menos me sentir pressionado, mas também tenho medo de ser negligente demais, medo também das coisas que não posso controlar, como as reações dela. Até aqui tem sido tudo bem, e acretido que nós dois estamos sendo muito responsáveis emocionalmente.
Vou deixar este post por aqui e focar mais exclusivamente nela e no que me passou nas últimas semanas no próximo post.
Ah, o sotaque irlandês… Eu poderia escutar horas e horas de irlandeses falando sem me cansar, definitivamente um dos meus sotaques favoritos do inglês, junto do quase indecifrável sotaque escocês, como nas músicas do Cocteau Twins, na bela voz de Elizabeth Fraser. E para os amantes assim como eu do inglês gaélico, eu tenho uma *baita* recomendação de filme, o belíssimo e eterno Barry Lyndon, do diretor Stanley Kubrick, talvez o filme estéticamente mais bonito já filmado, frequentemente aclamado pela sofisticação dos visuais, filmado em lentes da nasa, fabricadas justamente para a qualidade visual deste filme, que usa como iluminação a luz natural e velas para as cenas noturnas, coisa que na época era impensável, mas que, de algum modo, o visionário diretor conseguiu reproduzir com perfeição.
Mas não estou aqui para falar somente sobre as qualidades visuais dessa belíssima obra de arte, eu estou aqui na verdade para traçar um paralelo, falar de algo do qual o filme é, na verdade, frequentemente criticado, a sua história. Eu, ao contrário da maior parte do público, tomei gosto pelo filme não só pela sua bela imagem, ou pelos seus figurinos espetaculares, mas sim pela sua história, que segue a vida do nosso protagonista, Redmond Barry, que mais tarde, por uma sequência de eventos se tornaria Barry Lyndon.
“Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”
Ou algo do tipo, é a síntese desse filme. Como uma boa história de ascenção á riqueza, o filme demonstra como a luxúria corrompe, os desejos, a gana por mais, a estupidez sem senso quando alguém se depara com recursos, mas sem ter a motivação certa para atribuir corretamente seus ganhos. Uma crítica recorrente na era vitoriana.
Barry começa como um simples camponês que se apaixona por uma camponesa, e está disposto a fazer de tudo pelo seu amor, até morrer. Ou seja, ele tem uma causa nobre para lutar por, algo para almejar, e só lhe resta esta opção, nada mais lhe caberia da vida, e isto é admirável, algo que deveríamos invejar. Imagine ter tanta certeza de algo que você está disposto a entregar qualquer coisa que seja só para que isto se torne verdade. Aí eu te pergunto, você já sentiu algo assim antes?
Para o azar de Barry, um militar da alta cúpula também se afeiçoa pela mesma mulher (que aliás é prima de Barry, mas tenham paciência, estamos no século XVIII), Até que Barry o desafia para um duelo. *Essa é para vocês mulheres, quantos homens já duelaram por vocês?
Aqui eu decido interromper a história do filme, até por que não é necessário para que entendamos o paralelo que eu quero traçar entre os dias de hoje, e a história de Barry.
Barry, um homem que parecia tão obstinado acaba perdendo o motivo de sua obstinação por lhe parecer inalcançável, decide então preencher este sentimento com glória, títulos, riqueza, coisas fúteis e egoístas, ele decide viver para si mesmo.
Parecido com Barry estamos nós no século XXI. Você já parou para imaginar o que você quer da vida? Onde se vê daqui 5, 10, 20 anos? Nós não temos mais certeza de nada, mas, comprar é uma certeza, beber é uma certeza, gozar é uma certeza. Não conseguimos comprar uma casa, não temos dinheiro para comprar um carro, a comida é quase inacessível, relacionamentos estão cada vez mais difíceis de serem mantidos.
Ao invés de falar sobre o resultado das escolhas de Barry e de onde a sequência de eventos o levou, e, se valeu ou não a pena, falaremos um pouco sobre a minha vida, minhas decisões, os objetivos, nobres ou não, e pretendo expandir isto para fazer uma análise generalizada da vida no século XXI.
Assim como nosso protagonista eu não tenho um objetivo definido, me guio pelo o que seria mais confortável, o que me faria poder gastar mais, quais decisões eu tomaria para viver uma vida de prazeres cada vez maiores, porém, ao contrário de Barry, não tenho um motivo para ser expulso do conforto do meu vilarejo, da covardia da minha paixão inalcançável. Posso ficar aqui, sem ter de entrar no labirinto e encarar o minotáuro.
Até quando eu vou fugir da minha Ilíada? Quando estarei pronto para queimar na fogueira como a Joana D’arc?
Eu gostaria de influenciar as pessoas de algum modo, mas ao mesmo tempo me sinto trancado, incapaz de ter a certeza para influenciar a mim mesmo. Barry e eu somos vítimas dos nossos tempos. Tempos de covardia, de incerteza, da negação do divino, de prazeres e luxúrias imensuráveis.
Por isso, temos de fugir do conforto. Quando um parente mais velho julga nossa geração, falando que somos moles, (que nunca passamos fome como ele, que começou a trabalhar com 13 anos de idade fazendo sei-lá-oque), nós nos sentimos imbecis, sentimos que não temos controle de nossas próprias vidas, e que por algum motivo nascemos errados, que nosso cérebro sofre de problemas patológicos e que talvez não tenhamos jeito. Porém, muitas vezes deixamos de levar em conta o ambiente.
Poderia ser que não somos tão diferentes assim de nossos avós? O que tem de errado em termos nascido no conforto nos dado pelas gerações passadas? E daí que eu não trabalhei com 13 anos de idade, se precisasse e se tivessem os incentivos certos eu provavelmente teria sim trabalhado com esta idade, mas a mim não foi dada esta opção, nunca precisei me expor ao estresse por que nunca foi me apresentado esse estresse.
Quando apresento a ideia de me mudar da casa dos meus pais, minha mãe prontamente tenta me convencer de que tenho conforto aqui, que se eu continuar aqui poderei desfrutar de mais prazeres com meu dinheiro, que posso gastar mais e guardar mais dinheiro, posso fazer uma viagem cara aos Estados Unidos, comer nos melhores restaurantes. Mas aí eu paro e penso, “será que o que eu preciso é mesmo de mais conforto?”. Talvez o que falte na minha vida é justamente sair desta zona de conforto, me expor ao desagradável, a fome, a escassez, e receber de volta desta vida um eu diferente, que sobreviveu, que soube explorar os caminhos do labirinto e saiu com a cabeça do minotauro em mãos.
Com isto dito, volto ao título deste post. Não sejam um Barry Lyndon. Não se valham do esforço de alguém, para que as coisas tenham sentido precisamos conseguir elas pelas nossas próprias mãos, por mais que os outros possam nos ajudar, devemos ser capazes de ajudar de volta e de construir nossa casa com nossos próprios tijolos. Claro que certas coisas dificultam nosso caminho, como o preço dos alugueis, a inflação nos alimentos, a falta de uma estruturação da sociedade atual, porém sempre houveram dificuldades, e as nossas são estas, então cabe a nós partirmos neste mar que ainda não foi desbravado. Uma sociedade com tantas técnologias novas também vem com problemas novos que precisam de soluções novas, e isto não será dado pelas velhas gerações do “com sua idade eu já estava casado”, será dado por nós mesmos, que temos que carregar esta cruz das decisões dos que vieram antes de nós, mas agora munidos de uma vasta gama de informações em um mundo globalizado.
Espero que encontremos a glória amigos, e não acabemos como Barry, que para que entenda, sugiro que veja o filme, já que eu não gostaria de dar spoilers aqui.
O dia das crianças tá chegando (comecei a escrever isto antes) mas não é necessariamente o que me motivou a escrever este texto. Só calhou de coincidir que justamente agora eu fiquei reflexivo sobre algo que venho pensando há muito tempo, sobre quem eu sou, sobre minha personalidade e meus costumes, minha motivação para fazer as coisas.
Eu sou uma criança. Na verdade, não exatamente, eu não sou exatamente uma criança ou levo a vida de uma criança, eu sou um adulto, com um emprego, responsabilidades, contas, mas o que eu quero dizer é que por dentro, o que me motiva, o que me faz gostar da vida, o modo com o qual eu vejo a lógica do mundo, tudo isso é sim a criança dentro de mim que fala mais alto.
Antes de julgarmos se isto é uma coisa boa ou ruim, ou se eu realmente estou falando a verdade e não só repetindo algo que eu assisti em algum filme, eu gostaria de dar meus três motivos, que chamarei dos pilares que alicerçam este eu infantil que mora em minha subconsciência. Esses pilares serão: A brincadeira, a criatividade e a inocência. As três características que percebo que estão muito presentes na minha personalidade, e que entrego a uma espécie de espírito infatil que mora na minha alma.
A brincadeira: Eu vejo a brincadeira como meu amor pelos jogos, esportes, competições por mais bobas que sejam. A capacidade de interagir com alguém de modo lúdico é o que me traz mais felicidade, costumo me lembrar de quando eu escrevia músicas com meus primos mais velhos, escreviamos coisas engraçadas, e cantavamos enquanto caíamos em gargalhadas, ou quando ainda depois de velho, faço brincadeiras de adivinhação com meus amigos, e sem julgamentos, procuramos saber o que o outro está pensando com perguntas, por mais bestas que sejam, ou no teatro, basicamente em qualquer interação, tento mergulhar no meu eu infantil o máximo possível e buscar brincar durante e entre as cenas.
A criatividade: Apesar de andar lado a lado com a brincadeira, até porque, muitas vezes para brincar você precisa imaginar, eu inclúo a criatividade como algo separado, pois quero me referir as minhas habilidades criativas quando estou sozinho, seja compondo, escrevendo como aqui estou, produzindo músicas ou gravando vídeos. Eu preciso disso, tenho a necessidade de me expressar ou acabo esquecendo quem eu sou, me vejo trancado num espaço sem horizonte onde o rumo da minha vida é simplesmente ganhar mais dinheiro, comprar mais coisas.
E por último, a inocência: Aqui podemos considerar um termo mais brando, mas no geral quero significar ter a capacidade de não julgar, o poder de olhar as coisas como olhavamos quando eramos pequenos, como se as lentes que nos fizeram mais frios e mais sérios não existissem, e tivessemos capacidade de ver as coisas sem preconceitos e ideologias. Pequenos detalhes como uma opinião de outra pessoa sobre uma música, nós podemos julgar como se fossem imbecis que não entendem nada, “nossa, que mal gosto”, quando na verdade deveríamos ter a inocência de entender que pessoas tem opiniões diferentes das nossas e que nós mesmos não somos os donos da verdade em caso algum.
Com esses três pontos desenvolvidos, me proponho a fazer uma análise em cima destes. Sinto que quanto mais inibo o meu lado infantil, mais me sinto triste e isolado, estagnado e sem propósito. Explique para meu eu de 3 anos que tocava sua guitarra e cantava em seu microfone de brinquedo que ele na verdade não seria capaz de se expressar quando fosse maior, não seria capaz de cantar sem imaginar o julgamento alheio e que isto seria um impeditivo para ele.
Neste sentido, um dos meus principais objetivos hoje é me conectar com meu eu infantil, que carece de atenção, carinho, brincadeiras, criações. Que é inocente no modo de pensar, quase bobo as vezes, e que tem a humildade para aceitar o não saber. Ser quem veradeiramente sou, sem me problematizar a estética, as opiniões alheias, as falcatruagens e os julgamentos.
Finalizo dizendo que eu gostaria de que todos tentassem ser um pouco mais criança, não estou dizendo que devemos aprender com as crianças, ou tentando repetir algo genérico que todos falam sobre a infância. Digo que devemos ser menos, para nos tornar mais, algo inteiro. Hoje tanto nos nossos trabalhos, em relacionamentos, em discussões políticas, nós nos propomos a ter respostas para tudo, desistir quando algo não acontece do modo que gostaríamos, e esquecemos de baixar o tom, de brincarmos como criança, experimentarmos coisas novas e abrirmos nossos olhos para um horizonte além daquele que é óbvio dentro dos nossos paradígmas.
Portanto, convido vocês para serem mais criança comigo, o que pode até parecer uma tarefa fácil, mas talvez seja a coisa mais corajosa que eu já me propus a fazer.
Durante um longo final de semana eu infrentei um dos grandes desafios da vida de um homem. Um campeonato de tênis amador.
Para contextualizar, tênis é um esporte difícil, na verdade, talvez o mais difícil. Imagine que uma bola vem na sua direção á 150 quilômetros por hora, e você deve reagir, se movimentar até ela e rebater com precisão e força para que seu adversário não tenha uma bola fácil para rebater de volta, tudo isso enquanto sua família te assiste. Você, seu ego, seus músculos, sua gana por ganhar algo ao menos uma vez na vida, para poder falar que você venceu, que foi melhor que os adversários.
Há dois anos que eu jogo tênis, e no começo, eu mal conseguia rebater a bola de volta para o outro lado da quadra, por pura vaidade, eu queria ter a melhor técnica no forehand, queria sacar forte, acertar “winners” em todas as bolas, e é claro, nunca funcionava. Durante esses dois anos eu fiz aula regularmente, uma vez por semana, e participei de 3 torneios, incluindo esse de agora. Nessa jornada do tênis eu aprendi muitas coisas, uma delas incluí o fato de eu ser um péssimo competidor.
Sério, eu até consigo ganhar de pessoas que jogam bem menos que eu, consigo acertar meus saques, mas de forma alguma eu posso falar que sou bom jogador de tênis. Até que minha técnica é boa, perto dos outros eu sou o que “parece mais” um jogador de tênis, mas é pela pura vaidade que citei antes, em termos praticos, os outros jogadores do nível intermediário competem bem melhor que eu. Eles, diferente de mim, sabem ganhar uma partida.
Pois bem, vamos falar sobre o que aconteceu neste final de semana, o professor que me dá aulas de tênis frequentemente organiza campeonatos para os alunos, e para pessoas de fora que também podem se inscrever, e neste final de semana aconteceu um destes, no qual o seu eu lírico (ninguém) decidiu se inscrever.
O torneio incluía uma série de categorias, iniciante, avançado, duplas, feminino, infantil, etc. E eu decidi me inscrever no intermediário, pois atualmente é o que mais reflete o meu nível. O formato era o seguinte: A chave principal começava com todos jogadores, aos que perdiam, restava uma chave de consolação, um segundo prêmio apenas para os perdedores da primeira rodada, e para os que ganhassem, o torneio continuava normalmente.
Vou então eu jogar o primeiro jogo, sexta-feira á noite, chego lá e meu adversário já está me esperando, um tiozão daqueles “gente-boa”, tomando uma cerveja com os amigos, super sorridente e carismático, sobre-peso, o tipo que se você não tem alguma experiência como eu tenho com tênis, você diría que seria fácil de ganhar, pois você está mais que enganado.
No geral, não quero gastar muito tempo com esta partida, aqui segue um resumo do que aconteceu: Eu fiquei nervoso, joguei mal, poderia ter sacado melhor e ter errado menos bolas, jogado mais relaxado, mas mesmo nas condições perfeitas, provavelmente teria perdido, o adversário jogava melhor que eu e é importante admitirmos isso. O placar foi 8 – 2 para ele, poderia ter sido um 8 – 6 talvez, ou até um tie-break se eu tivesse jogado melhor, mas ele mereceu vencer.
Com isto eu vou para a chave de consolação, jogar contra os outros que também perderam sua primeira rodada. Até aí tudo bem, eu estava bem confiante, sabia que tinha jogado mal o primeiro jogo e que meu adversário poderia ser alguém mais tranquilo para jogar contra, meu jogo no sábado estava marcado para as 17:00, não conhecia meu adversário mas estava pronto mentalmente para a partida. Mas aí, enquanto eu almoçava no sábado recebo uma notificação do aplicativo que organiza os jogos do torneio, acontece que o cara que jogou contra mim pegou um outro rapaz que tinha recebido bye na primeira partida, ou seja, não jogou a primeira partida por não ter contra quem jogar, porém acabou perdendo na segunda rodada, e o sistema, ao invés de eliminar ele de vez, passou ele para a chave da consolação para jogar contra mim.
Acabou que teria sido um bug, então eu poderia ter simplesmente ignorado, mas mesmo assim, decidimos jogar a partida. Achei que seria justo já que ele não jogou a primeira, e não teria uma segunda chance na consolação, mas deixa eu te falar, que erro eu cometi, viu…
Acabamos jogando até o tie-break, um jogo repleto de erros, mudanças estratégicas, desafios mentais, onde um estava na frente e de repente o outro tomava a liderança, foi assim o jogo todo, e eu decidi correr, decidi que daria tudo de mim para ganhar esta partida e acabou que foi isso que aconteceu, ganhei de 10-8 no tie-break. Não satisfeitos com o drama da partida acabamos descobrindo depois que o tie-break iria até 7 pontos, e não 10, o que daria á ele a vitória da partida e não á mim. Uma daquelas irônias do destino, mas como já tinhamos acordado antes que jogariamos até 10, decidimos continuar com o resultado que foi jogado, sem discussões.
No momento da partida eu já estava sentindo certo sono, porque a partida foi logo após o almoço, eu estava meio letárgico, isso fez com que eu tivesse que aumentar mais minha intensidade, correr mais ainda, pular para me manter acordado, esse tipo de coisa que só faz você se cansar ainda mais. Resumo da ópera: Acabou a partida e eu estava morto. Meu corpo já estava pedindo arrego, decidi pegar um café, e pensando agora, talvez deveria ter comido alguma coisa para o próximo jogo, mas eu estava com dor de garganta então nem consegui sentir fome.
Minha terceira partida foi logo depois, fiz o aquecimento com meu adversário que ia jogar sua primeira partida do dia e percebi no aquecimento que jogava melhor que ele, ele não conseguia me machucar muito e era muito errático enquanto eu conseguia manter mais golpes fortes na quadra e por mais pressão, no entanto, estava cansado, e o que eu não esperei foi que ele fosse devolver todas as bolas em quadra. Ele chegava em curta, em funda, na esquerda e na direita. E eu, sem força para dar winners ou sacar forte tinha que me contentar em simplesmente devolver a bola, o que eu fiz, os pontos ficaram longos, dei meu sangue nessa partida, mas no final ainda perdi de 8 – 3, um placar que não faz jus ao quanto essa partida foi pegada e legal de jogar.
Decidi escrever este post na verdade muito por conta dessa partida em específico. Durante um ponto eu tive uma sensação de derrota e me perguntei, “por que eu estou jogando tênis?” e simplesmente percebi que era por que eu gostava, por tanto, seria burríce eu me irritar ou sair frustrado dessa partida, mas é claro que ainda assim eu queria ganhar, foi aí que eu decidi curtir a partida ao máximo, fiquei dizendo para mim mesmo, “só mais uma bola”, para me motivar a seguir no ponto, motivar minhas pernas a se mexerem mais, mas infelizmente foi tarde demais, ainda assim, espero que eu consiga adotar essa estratégia nas minhas próximas partidas e para todas as outras coisas na minha vida que são difíceis e requerem mais do que fazer o simples, mais do que simplesmente aturar o tempo da tarefa. Vou tentar entregar 100% de mim, fazer a mais e não a menos, isto é o que eu me proponho a fazer á partir de hoje. Quanto a minha família, eles pareceram ficarem satisfeitos com meu terceiro jogo, que foi o que eles acabaram vendo no sábado. Meus amigos infelizmente não conseguiram ir no horário do meu jogo.
Mesmo tendo perdido ainda sinto um orgulho de ter dado tudo de mim durante aquele breve momento, e sinto uma motivação para jogar ainda mais tênis e, talvez, num próximo torneio eu venha atualizar aqui e escrever uma história motivacional sobre como eu cheguei na final e acabei ganhando. É isso que eu espero pelo menos, mas, teremos que esperar mais um pouco.
Eu frequentemente me espanto com minha capacidade de procrastinar. Escrevendo isso agora, eu sinto um estresse enorme no meu corpo, vontade de morder o lábio, de ranger os dentes, de coçar minhas mãos, de pegar meu celular e mergulhar meu rosto até que todos musculos do meu corpo se desliguem e eu fique completamente hipnotizado por centenas de vídeos de 15 segundos. Então eu me encontro nessa situação, completamente anestesiado, incapaz de manter qualquer projeto de longo termo simplesmente por me sabotar dia após dia, como se eu estivesse preso numa espécie de limbo. Pois então eu proponho duas perguntas, “como eu vim parar aqui?” e “como eu saio desse lugar?”.
Para respondermos a primeira pergunta eu poderia discorrer sobre o meu passado inteiro, sobre cada momento que me fez ser quem eu sou hoje, mas vou tentar ser breve e não ser tão específico quanto a momentos da minha vida, generalizar mais sobre meus pensamentos. E é aí que chegamos no ambiente.
O ambiente molda qualquer pessoa. Não existe individualidade que rivalize com o ambiente, isto é, não importa o quão forte você seja, você sempre será, em algum nível, moldado pelo ambiente que você se encontra agora.
A situação não é boa. Isolamento social misturado com uma certa imaginação fantasiosa fazem com que meus dias se pareçam todos iguais. Monotonia. E isto, certamente causa certo estresse, que causa ansiedade, que faz com que eu durma mal, que me leva a continuar nesse estado atual. São incontáveis epifanias madrugais que já tive onde escrevi em meu caderno de anotações tudo que deveria mudar, o que eu deveria fazer a partir de tal momento, divagando e estimando quais seriam as mudanças que eu faria para sair do limbo.
Falando em limbo, posso falar do jogo que leva esse nome, e não, não vou falar de como jogar esse jogo mudou minha vida, até por que eu nunca sequer joguei esse jogo, porém, vendo algum youtuber da década de 2010s jogar esse jogo, eu decidi procurar o que essa palavra significava, e de algum modo, isso me marcou bastante. Até então eu nunca tinha imaginado o conceito do limbo, (Esse jogo é de 2010, e eu nasci em 2002) e isso me fez pensar muito em como seria ficar congelado, sem noção do tempo espaço, sem perspectiva e sem passado. Achei pertinente contar essa história por que durante esse post eu já citei duas vezes o tal “limbo”, então, de certa forma foi algo que ficou comigo, uma palavra que de tempo em tempo entra em voga na minha mente, e essa foi a sua origem.
L’important c’est pas la chute, c’est l’atterrissage
Eu estava falando hoje com um amigo que está depressivo, num estado pior que o meu. Meu amigo trabalha, faz faculdade online, joga Counter Strike, come lanche e bebe energético enquanto fuma seu vape dentro do seu apartamento, sozinho. E sabe o melhor? Quando falo para ele que ele deveria fazer coisas diferentes, conhecer pessoas novas, sair mais de casa, ele simplesmente responde que não quer, e que prefere ficar do jeito que está, sem pensar muito nos problemas. Já faz pelo menos um ano que ele só faz isso e eu fico me perguntando, qual é o destino que aguarda ele? Para que insistir na auto-destruição?
Isso me fez lembrar do filme frances “La Haine”, onde três adolescentes que vivem em um bairro suburbano em Paris, convivem com seu ambiente cheio de drogas, criminalidade, com falta de estrutura familiar e disciplina. Neste filme, é citado um conto sobre uma pessoa que cai de um prédio com 50 andares, durante a queda, a cada andar que passava a pessoa pensava, “até aqui, tudo bem”, passado alguns andares, para se reconfortar, a pessoa pensava denovo, “até aqui, tudo bem”, e eu vou deixar você adivinhar o que acontece no final. A moral do conto é que, o que conta não é a queda, mas sim, a aterrissagem. O final é trágico.
Eu chego nesta conclusão: Eu preciso mudar. Mudar de casa, de cidade, de país, de trabalho, de amigos, de rotina, de gosto musical, de vícios. Tudo precisa mudar para que eu não tenha um final trágico, o final que eu imagino para o meu amigo, por isso, é importante estar em constante movimento, me chacoalhando até que as amarras se disfaçam e eu consiga correr livre.
Procurar algo novo sempre. Buscar o que me completa, o que me torna eu mesmo, e não este estranho enclausurado. O cara caíndo do prédio aceitou, ele disse, “até aqui, tudo bem”, pois eu desafio isto, tento me agarrar a qualquer galho de árvore na beira do precipício, bater minhas asas para tentar desafiar a gravidade e voar para outro lugar. Não aceito cair.
Sendo mais racional e direto, e também, problematizando a minha geração, eu penso em como nós todos (da geração Z) estamos procurando um motivo para viver, um motivo para morrer e poder dizer chega, satisfeitos com o que foi da nossa breve estadia nesse plano que chamamos de vida. E as vezes eu me sinto bem otimista, acho que os sortudos que conseguirem chegar longe o suficiente, vão conseguir falar, “okay, fiz o que eu tinha que ter feito”, e enquanto não chegamos lá, temos que ter em mente que estamos a caminho. Acredito que a verdadeira satisfação só venha com a velhice. Até lá, se descubra, arrisque.
Esse texto acabou dando uma volta que eu não esperava. Escrevi isto em dois dias, e devo dizer que não imaginava um final positivo quando comecei ontem, mas fico feliz com a mensagem que deixei aqui. Não vou mudar o título para que fique visível a dualidade dos meus pensamentos. Talvez, não estejamos num limbo, mas sim numa escada, como estão seus quadríceps? As vezes descansamos, as vezes tropeçamos, mas seguimos subindo a escada. Eu peço a mim mesmo que siga subindo a escada. E não se atire do prédio.
É isto mesmo senhoras e senhores. Eu preciso de novos amigos.
Este post não é uma DISS aos meus atuais amigos, e também não tem nada a ver com minhas habilidades sociais. Eu não sou particularmente nenhum esquisitão. Este post tem sim a ver com o fato de eu não me sentir encaixado no status atual das coisas, basicamente, eu preciso de semelhantes, pessoas que fazem sentido das coisas que eu gosto.
Mas antes de saber quem serão meus novos amigos, preciso antes descobrir quem sou EU.
O problema mora inteiro aí na verdade. Eu sou uma pessoa muito versátil e isso é um problema. Deveria eu ser amigo de todos? Uma coisa que eu de fato não gosto é burrice. Não me entenda mal, eu não sou nenhum elitista, não tenho nada contra nossos burrinhos, e também não quero vir aqui pagar de gêniozão, mas de fato, tenho dificuldade de me conectar com pessoas cujo o raciocinio não passa da terceira página. Pessoas que não me desafiam não me interessam.
Agora vamos aos estilos, o que os millenials chamariam de “tribos” (nome horripilante digno do programa “Fantástico”). Eu, quando falo que sou uma pessoa versátil, não pretendo soar igual uma garota que tem na bio do tinder “Sou eclética, minhas músicas vão de pagode até o heavy metal”, sinto muito, você não é eclética, só tem mau gosto mesmo. Eu quero dizer que posso ir do hermetismo, ao cinema dinamarquês, ao futebol mainstream, ao teatro moderno, isto só no mês de setembro (Deus sabe o que me aguarda no mês de outubro). Como encontrar pessoas que se comuniquem com toda essa zorra total (Já que eu tinha falado do Fantástico), e MAIS, como garantir que não sejam completos esquisitos!?
Antes que alguém me mande entrar para a academia, saiba que eu já tentei, e a malhação (pronto agora parei) não me arrumou nenhuma amizade definitiva. Só alguns tiozões “gente-boa” que eu encontro no outro lado da rua as vezes e mando um joinha, sinceramente não vale nem atravessar a rua (piada da galinha niilista).
Apesar de toda a negatividade, não estou disposto a desistir tão facilmente, não vou aceitar que serei um frustrado, solitário. Preciso dos outros para me dispor, para me doar, saber que existe quem depende de mim e que eu devo algo á estes outros seres, é por esse motivo que sei que preciso de pessoas, preciso de quem me entenda, e quem esteja disposto a correr atrás dos meus sonhos em conjunto, mas então, qual é meu sonho?
E é aí que chegamos na pergunta de um milhão de dólares. Não resta eu simplesmente ser amigão de todo mundo, o cara que todos conhecem mas ninguém se aproxima de verdade. Na verdade resta eu saber qual é o rumo que eu quero seguir, seja ele artístico, acadêmico, profissional, familiar, eu preciso saber o que, antes de saber quem. A bolha é consequência, é inevitável, se eu me dedicar muito em um caminho, é óbvio que vou cruzar com pessoas que estão trilhando este mesmo, e é bem possível que nos juntemos para seguir mata a dentro.
E então voltamos a pergunta: Qual é meu sonho?
Quando estamos falando de mim, é mais fácil falar, “Qual não é seu sonho?”, pois sou naturalmente um sonhador, alguém imaginativo, com uma facilidade tremenda de criar cenários, positivos e negativos, me motivar e me sabotar, no mesmo minuto!
Isso cria uma dificuldade tremenda, para encontrar minha “tribo” preciso me encontrar, para me encontrar, preciso me entender, para me entender, preciso de pessoas. Queria olhar para este papel virtual e poder dizer que simplesmente vou fazer música a partir de agora, ou que vou trabalhar para fazer um filme, uma peça, vou construir uma família, vou ficar cada vez melhor e construir uma carreira dentro da minha atual profissão, mas a verdade é uma: Eu não sei.
Talvez seja um dos motivos dos quais eu decidi escrever para este blog, conforme eu escreva mais e mais, eu vou ser obrigado a expor o meu verdadeiro eu, e assim então, vou descobrir meu próximo projeto e talvez, com sorte, eu consiga seguir neste caminho.
Uma coisa é certeza, daqui 5 anos eu vou estar em um lugar diferente, com pessoas diferentes. Eu sei disso, mas onde, talvez eu responda daqui uns meses, ou talvez eu só saiba quando eu chegar lá, até lá, sigo escrevendo aqui e procurando um caminho para mim.