blog do eu ninguém

Política, filmes, música, livros e tudo que se trata da minha mente perturbada.

Ah, o sotaque irlandês… Eu poderia escutar horas e horas de irlandeses falando sem me cansar, definitivamente um dos meus sotaques favoritos do inglês, junto do quase indecifrável sotaque escocês, como nas músicas do Cocteau Twins, na bela voz de Elizabeth Fraser. E para os amantes assim como eu do inglês gaélico, eu tenho uma *baita* recomendação de filme, o belíssimo e eterno Barry Lyndon, do diretor Stanley Kubrick, talvez o filme estéticamente mais bonito já filmado, frequentemente aclamado pela sofisticação dos visuais, filmado em lentes da nasa, fabricadas justamente para a qualidade visual deste filme, que usa como iluminação a luz natural e velas para as cenas noturnas, coisa que na época era impensável, mas que, de algum modo, o visionário diretor conseguiu reproduzir com perfeição.

Mas não estou aqui para falar somente sobre as qualidades visuais dessa belíssima obra de arte, eu estou aqui na verdade para traçar um paralelo, falar de algo do qual o filme é, na verdade, frequentemente criticado, a sua história. Eu, ao contrário da maior parte do público, tomei gosto pelo filme não só pela sua bela imagem, ou pelos seus figurinos espetaculares, mas sim pela sua história, que segue a vida do nosso protagonista, Redmond Barry, que mais tarde, por uma sequência de eventos se tornaria Barry Lyndon.

“Ou você morre herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão”

Ou algo do tipo, é a síntese desse filme. Como uma boa história de ascenção á riqueza, o filme demonstra como a luxúria corrompe, os desejos, a gana por mais, a estupidez sem senso quando alguém se depara com recursos, mas sem ter a motivação certa para atribuir corretamente seus ganhos. Uma crítica recorrente na era vitoriana.

Barry começa como um simples camponês que se apaixona por uma camponesa, e está disposto a fazer de tudo pelo seu amor, até morrer. Ou seja, ele tem uma causa nobre para lutar por, algo para almejar, e só lhe resta esta opção, nada mais lhe caberia da vida, e isto é admirável, algo que deveríamos invejar. Imagine ter tanta certeza de algo que você está disposto a entregar qualquer coisa que seja só para que isto se torne verdade. Aí eu te pergunto, você já sentiu algo assim antes?

Para o azar de Barry, um militar da alta cúpula também se afeiçoa pela mesma mulher (que aliás é prima de Barry, mas tenham paciência, estamos no século XVIII), Até que Barry o desafia para um duelo. *Essa é para vocês mulheres, quantos homens já duelaram por vocês?

Aqui eu decido interromper a história do filme, até por que não é necessário para que entendamos o paralelo que eu quero traçar entre os dias de hoje, e a história de Barry.

Barry, um homem que parecia tão obstinado acaba perdendo o motivo de sua obstinação por lhe parecer inalcançável, decide então preencher este sentimento com glória, títulos, riqueza, coisas fúteis e egoístas, ele decide viver para si mesmo.

Parecido com Barry estamos nós no século XXI. Você já parou para imaginar o que você quer da vida? Onde se vê daqui 5, 10, 20 anos? Nós não temos mais certeza de nada, mas, comprar é uma certeza, beber é uma certeza, gozar é uma certeza. Não conseguimos comprar uma casa, não temos dinheiro para comprar um carro, a comida é quase inacessível, relacionamentos estão cada vez mais difíceis de serem mantidos.

Ao invés de falar sobre o resultado das escolhas de Barry e de onde a sequência de eventos o levou, e, se valeu ou não a pena, falaremos um pouco sobre a minha vida, minhas decisões, os objetivos, nobres ou não, e pretendo expandir isto para fazer uma análise generalizada da vida no século XXI.

Assim como nosso protagonista eu não tenho um objetivo definido, me guio pelo o que seria mais confortável, o que me faria poder gastar mais, quais decisões eu tomaria para viver uma vida de prazeres cada vez maiores, porém, ao contrário de Barry, não tenho um motivo para ser expulso do conforto do meu vilarejo, da covardia da minha paixão inalcançável. Posso ficar aqui, sem ter de entrar no labirinto e encarar o minotáuro.

Até quando eu vou fugir da minha Ilíada? Quando estarei pronto para queimar na fogueira como a Joana D’arc?

Eu gostaria de influenciar as pessoas de algum modo, mas ao mesmo tempo me sinto trancado, incapaz de ter a certeza para influenciar a mim mesmo. Barry e eu somos vítimas dos nossos tempos. Tempos de covardia, de incerteza, da negação do divino, de prazeres e luxúrias imensuráveis.

Por isso, temos de fugir do conforto. Quando um parente mais velho julga nossa geração, falando que somos moles, (que nunca passamos fome como ele, que começou a trabalhar com 13 anos de idade fazendo sei-lá-oque), nós nos sentimos imbecis, sentimos que não temos controle de nossas próprias vidas, e que por algum motivo nascemos errados, que nosso cérebro sofre de problemas patológicos e que talvez não tenhamos jeito. Porém, muitas vezes deixamos de levar em conta o ambiente.

Poderia ser que não somos tão diferentes assim de nossos avós? O que tem de errado em termos nascido no conforto nos dado pelas gerações passadas? E daí que eu não trabalhei com 13 anos de idade, se precisasse e se tivessem os incentivos certos eu provavelmente teria sim trabalhado com esta idade, mas a mim não foi dada esta opção, nunca precisei me expor ao estresse por que nunca foi me apresentado esse estresse.

Quando apresento a ideia de me mudar da casa dos meus pais, minha mãe prontamente tenta me convencer de que tenho conforto aqui, que se eu continuar aqui poderei desfrutar de mais prazeres com meu dinheiro, que posso gastar mais e guardar mais dinheiro, posso fazer uma viagem cara aos Estados Unidos, comer nos melhores restaurantes. Mas aí eu paro e penso, “será que o que eu preciso é mesmo de mais conforto?”. Talvez o que falte na minha vida é justamente sair desta zona de conforto, me expor ao desagradável, a fome, a escassez, e receber de volta desta vida um eu diferente, que sobreviveu, que soube explorar os caminhos do labirinto e saiu com a cabeça do minotauro em mãos.

Com isto dito, volto ao título deste post. Não sejam um Barry Lyndon. Não se valham do esforço de alguém, para que as coisas tenham sentido precisamos conseguir elas pelas nossas próprias mãos, por mais que os outros possam nos ajudar, devemos ser capazes de ajudar de volta e de construir nossa casa com nossos próprios tijolos. Claro que certas coisas dificultam nosso caminho, como o preço dos alugueis, a inflação nos alimentos, a falta de uma estruturação da sociedade atual, porém sempre houveram dificuldades, e as nossas são estas, então cabe a nós partirmos neste mar que ainda não foi desbravado. Uma sociedade com tantas técnologias novas também vem com problemas novos que precisam de soluções novas, e isto não será dado pelas velhas gerações do “com sua idade eu já estava casado”, será dado por nós mesmos, que temos que carregar esta cruz das decisões dos que vieram antes de nós, mas agora munidos de uma vasta gama de informações em um mundo globalizado.

Espero que encontremos a glória amigos, e não acabemos como Barry, que para que entenda, sugiro que veja o filme, já que eu não gostaria de dar spoilers aqui.

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