Neste domingo, dia 4 de outubro de 2026, tivemos o primeiro turno das eleições brasileiras, e essa mesma deixou um gosto extremamente amargo em mim.
Adoraria estar comemorando o derretimento da quadrilha do PT, que sugou a energia vital brasileira para seu projeto de poder personalíssimo, corrupto e moralmente sujo. No entanto, e digo isso com a maior dor no coração, trocamos uma quadrilha de vermelho por outra quadrilha de verde e amarelo. Dói dizer que, mesmo que eu tivesse feito mais, trabalhado mais, o zeitgeist, as forças superiores, não estavam ao favor de quem quer a mínima moralidade.
Dói demais eu não poder comemorar que canalhas iguais ao Zé Dirceu e o Delúbio (ambos presos por escândalos de corrupção), não se elegeram, por que, no lugar destes, se elegeram gente da (também) mais baixa torpe. De insalubres influencers da direita, até radicais da esquerda brasileira de twitter.
E dos decentes não ganhou (quase) ninguém.
Salvo raríssimas exceções, houve uma gigantesca decaída (e quem diria que fosse possível decair). Vimos, possivelmente, a eleição mais triste da história do país.
Porém, como de praxe, eu sou uma pessoa terrivelmente otimista, meu espírito infantil faz com que eu tente enxergar a luz no fim do túnel. Extrair do bagaço dessa laranja amarga, um suco, que por mais que ralo e sem gosto, é do meu dever engolir. Por que é a única realidade aceitável nesse momento se imaginarmos que a total entropia e o entreguismo moral não é uma opção.
Devo esclarecer, no entanto, que não vim por meio deste demonstrar o meu otimismo. Deve se dar tempo ao luto.
Como bem dito pelo maior dos líderes brasileiros (ao menos no campo moral), Renan Santos, o Brasil antecipa tendências políticas. Por motivos únicos da nossa nação, nós, antes de todas outras democracias ocidentais, tomamos frente do total narcisismo político, termo que adapto do sociólogo Richard Sennet, autor do livro “O declínio do homem público”. Nós, como povo, conseguimos integrar inteiramente nosso ego afundo da res publica, desrespeitando qualquer senso de impersonalidade e de saber escolher. Apenas escolhemos nós mesmos. Amplificando nossas raivas e vícios em líderes fracos, por que neles assistimos versões dramatizadas do cotidiano falho e corrompido de nossas vidas.
Há algo em ambos os lados, petista e bolsonarista, que representa as raivas e sentimentos mais torpes e personalíssimos do eleitorado. Representa um sentimento inerente ao ser humano, sedutor de modo quase sexual, nisso, a negação do outro. O voto deixou de vez de ser “Eu voto porque X me representa” e virou “Eu voto porque X odeia Y”, algo que apenas o narcisismo clínico explica, espelhando a frustração no outro e arrotando virtudes simplesmente pelo fato de ser. “Sou cristão, portanto, sou bom”; “Sou mulher, portanto, sou boa”; O “ser” é fim em si mesmo. Basta ser, sem necessidade da ação alinhada à moral.
Vamos então aos líderes: “O Flávio é cristão”, mesmo gabaritando a lista de pecados capitais, sem demonstrar qualquer arrependimento. “O Lula é a favor das mulheres”, mesmo tendo inúmeras falas machistas e mantendo mulheres e suas famílias no bolsa família, como curral eleitoral, nesses últimos 24 anos.
O que observamos é o agravamento do narcisismo público que vem crescendo há cerca de 10 anos. O eleitor precisa disso, pois já faz parte da sua busca pelo próprio ser. Ainda que afaste ele da própria conclusão do ser, adentra os seus símbolos culturais (ou aculturais) de forma a se tornar a visão de mundo dele aquela do partido.
Agora, simplificando um pouco, dou minha resposta a isto. Precisamos urgentemente de uma Renaissance brasileira. Estamos hoje entre oligarquias que repetem símbolos a parte de qualquer virtude. É a ideologia do tamanho, da massa amorfa, do dinheiro e da falsa moralidade.
A resposta será improvável e lenta, e guiada apenas por um número pequeno de pessoas extremamente corajosas, sendo injusto até a comparação com Davi e Golias, ou a comparação dos Hobbits contra Sauron, onde o tamanho e a capacidade de ser ardiloso era de certa forma uma vantagem para a sociedade do anel.
Onde a moralidade não consegue penetrar, e a cultura narcisistica é mais importante do que o trabalho honesto, será uma guerra injusta de inúmeras formas. Basta a este número seleto e ousado darem o seu melhor tiro.
No final, que seja a trajetória ingrata a mais satisfatória.
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